quarta-feira, 3 de abril de 2013

Deixa

"O homem sempre quer aquilo que não tem" ou mesmo " A grama do vizinho é sempre mais verde." Mas no fundo, acho que amores impossíveis se explicam por: " O que pode uma criatura, diante de outra criatura, senão amar?" Enfim, "Histórias de amor duram apenas 90 minutos" porque o amor é efêmero, é fugaz, escorre entre os dedos, ele vai. É necessário desistir, dizer adeus, dizer desculpa, largar o osso, assinar um mea-culpa. É necessário deixar. Deixo. Amei-a, meu choro e meu prazer, meu sonho e meu plano, meu sorriso e minha poesia. Agora deixo, até que o peito não aguente e exploda em amor.

Deixa

Deixa esse amor ir.
Deixa des-ser,
Deixar de ser.

Deixa ser o que for,
Como for.
Como não for.
Esse não amor,
nosso desamor.

Deixa a mocinha virar multidão.
Deixa chegar o não.
E todo seu império de pobreza.

Deixa vir sua tristeza,
Acompanhada da imensa beleza,
da impossibilidade.
Sua tristeza e mediocridade.

E deixa, assim,
o preto imperar.
A cortina preta que tudo sufoca,
tudo mata, esfola,
descortinar

meus sonhos e futuros,
suas cores e seus muros,
tua beleza inalcançável
e minha escrita irrefreável.

Deixa morrer,
Que tudo que nasce, morre
E agora beleza escorre
Do que foi o meu amar.

Deixa que amanhã é outro dia,
Que há de vir outra mocinha,
E que o sol, à revelia,
há de brilhar.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O que vier

Nós sabemos que vamos perder as pessoas que mais amamos, e vivemos como se não soubéssemos. Acho que é menos doloroso.

O texto abaixo tem relação com a frase de Drummond: " As coisas findas, mais que as lindas, essas ficarão.", frase que carrego como mantra.É dedicado a duas das pessoas que mais me foram importantes e que vivem em mim em todo ato ou pensamento, que se enraizaram no mais profundo do que sou e cujas presenças ainda habitarão este mundo por muitos anos. Amor pouco tem a ver com a verbalização: "eu te amo". Tem mais a ver com a ordinariedade do dia, com o não glamour, com as mãos sujas e o corpo suado. Outra frase que também me move bastante e que tem a ver com esse texto é uma de Manoel de Barros: " As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas."

Por fim, a tudo que se foi, a tudo o que virá. Aos que amei, aos que vou amar. Evoé ao que a vida há de me dar, evoé ao futuro lindo que virá. Peço passagem e rendo homenagem:

O que vier
será lindo
será lindo
será?

O que vier
será lindo
será lindo
será!

O que vier
será lindo
será findo
e irá.

O que vier
será findo
será findo
e irá.

O que vier
será findo
será findo
findará.


Mas basta eu fechar os olhos
Que outra vez poderei te encontrar
E outra vez no teu ombro eu poderei recostar
E outra vez tua gaitada eu poderei escutar
E outra vez teu sorriso sorrirá sorrirá

lálálá...

sábado, 21 de julho de 2012

Para quando se pisar o chão.

Antes de pisar esse chão , peça licença.
Peça desculpas, faça reverências.
Tira os teus sapatos brilhantes
E mostra,ao menos uma vez, a face imunda dos teus pés brancos e macios.
Só dessa vez abdica dos teus coloridos tênis, esquece o prateado e o dourado.
O vermelho sangue e o laranja coral.
Abdica, que honra não brilha,
É marrom de lama e malcheira, fede.

Pisa com cuidado e respeito
Essa terra que tu sempre esqueces o maiúsculo ao pronunciar.
Pisa com consciência
Supera tua demência que governa o teu agir, fazer, pensar.
E principalmente o esquecer.

Mas lembra que não pisas piso
Não pisas mármore, granizo.
Pisas lama, solo, chão

E onde pisas, pisa sangue
Suor e saliva
E corpos, mentes, meninas.
Meninos, mulheres, idosos.
Pisas gente, pisas história.

Não, não pisas sangue vermelho escorrido da bravura.
Pisas sangue batido arrancado na tortura,
Sangue preto, pútrido
Filho do momento exdrúxulo
Que se chama ditadura.

Não é sangue que leva a vida
É sangue que perdeu-se junto à vida
E que garante as gerações futuras.

Não é sangue de nutrientes
Plaquetas, plasma, hemáceas
Não é sangue de falácias,
É sangue de gente, que sangrou pra outra gente nascer.
Como o sangue da menarca, o primeiro sangramento
Pra nova vida surgir.

Foi esse sangue, retirado a penas duras,
Por uma ditadura,
Que vem sujo como de menarca,
Já preto pelo estado de decomposição,
Que eleva este lugar, o enobrece
E então o chamamos nação.

domingo, 27 de maio de 2012

Não sei

Não sei que nada sei
Não sei
Sei nada
Sei de nada do ser
do saber, do achar ou do crer

“Só sei que nada sei” é pros sabidos.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quanto ao tempo

Lembra que tempo é recurso finito não-renovável.
Não brota
ou renasce
ou revive,
é fugaz.
*
Lembra que tempo é senhor
Da corredeira da vida.
E o que vai,
Já foi.
E foi-se,
Adeus.
*
E como disse a poeta,
“ Faz a gente, faz da gente e se desfaz.
Ele enrola e desenrola.
Dá gorjeta e pede esmola.”
Enche a sacola do perdão
e do pecado.
Pondo-os lado a lado
até a batida final.
*
Apaga os vestígios.
E não deixa resquícios,
muito menos prestígios,
de vida qualquer.
*
Lembra que o tempo faz nascer e morrer.
E nos faz fazer
do tempo o que for
Fazer dinheiro, fazer amor.
Sentir poesia, sentir rancor.
Escolher o que melhor for,
o caminho de menos dor.
*
E se depois do tempo passar,
e só a tristeza sobrar,
o tempo não vai lamentar,
lamento,
que escolhestes gastar
assim o teu tempo.
*
E não haverá mais dor.
Ou choro,
ou arrependimento.
Porque agora,
e novamente lamento,
já não haverá mais tempo.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Porque Amores só amam


Tudo bem, a mão lhe ia escapando das mãos pouco a pouco, mas não há problema.
Amores vêm e vão, em vão, porque vêm de novo.
E o seu ia. Ia, ia, ia
Cada maldita palavra mal dita afastava a menina alguns metros.
E outras palavras, ainda malditas, mas bem ditas por outra boca,
a levavam ainda mais depressa.

O rapaz não ligava.
Que amores vêm e vão, ele cria.
Em  vão, a vida lhe mostraria.
Tudo bem, não há problemas, mas amores.
Amores só amam.
E o dele só amou.
Outro.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mortes.

A morte lhe chegou. Na verdade, a morte o morreu que morte não ama, mata ou conjuga qualquer outro verbo senão morrer, mas o autor é poeta e sabem como são os poetas, escrevem mais do que devem.
Na praia que estava, afogado morreu. O oceano de um lado, à esquerda. À direita, a via movimentada e seus jovens correndo na avidez da idade. E egos. Mil egos, egos mil.
Acho que não sentiu dor, acho que só o coração parou. Nem isso, acho que morreu com o coração batendo que este não tinha o direito de parar. Se pudesse argumentar, o faria. Diria que não tinha tempo para morrer, que havia ainda muitos contratos a assinar e petições e reuniões e o inventário e aquela cartilha de investimentos e aquele relatório, enfim, precisaria de algo em torno de uma semana para organizar tudo. Mas não argumentou, que morte não argumenta, não faz interlocução. Morte apenas morre.
Acho que a morte o morreu por pena. O homem, no mar que estava, só tinha a cabeça para fora - ou era esta a mais imersa - e nadava desesperadamente. Às vezes para baixo, se afundando mais como a se entregar. Noutras, para cima, como a tentar sobreviver, mas emergia para buscar poesia onde, eu lamento, não havia.
Afogando-se que estava, a morte o morreu por dó, para que não penasse mais.(Embora morte só seja morte e morra, acho que teve pena do pobre rapaz e isso foge completamente à conjugação dos verbos.) Lamento, mas os muitos contratos a assinar e petições e reuniçoes e o inventário e aquela cartilha de investimentos e aquele relatório ficaram. Todos. Em suas gavetas, seus armários, na mesa do escritório. Ficaram. E ele, também. Ali, estendido na areia, como tentando penetrar nesta. Rosto na areia, costas à lua.
Morrera afogado de realidade. E suas narinas buscavam, e desesperadamente, algo que o homem nem conhecia: poesia.
*
E ali perto, menos de 20 metros, eu acredito, outra morte: Jovem rapaz andava tranquilamente com as vistas ao céu, ainda nublado. As nuvens, sua meninice feita de algodão, se abriram num repente: eram sorriso. A lua, cheia em seu brilho de brancura falhada, não teve pena, que lua apenas ilumina: iluminou. O rapaz não aguentou, era muita luz. Embriagou-se. Afogou-se. Morreu.