De uns tempos pra cá não tirava aquela expressão do rosto. Uma expressão de vazio, de papel branco a ser preenchido. Aquela cara que facilmente era substituída pela tristeza ou alegria, aquela cara de estado intermediário, de espera. Era com essa cara que andava nas ruas. Devia ser essa sua cara de andar nas ruas. E era com essa cara de andar nas ruas, que andava nas ruas, cheias de pessoas que andavam nas ruas com suas caras de andar nas ruas.
Agora voltava de mais um dia de trabalho. Pasta sob os braços e fones nos ouvidos. Vestia óculos e roupas sociais. Em caminho contrário ao seu, vinha um rapaz. Bermuda, camisa e chinelos. E, é claro, mais sua cara de andar nas ruas.
O rapaz o fitou vacilante (apenas o olhara, e olhar é um gesto normal de andar nas ruas). Nada de mais. Os olhos do rapaz saltaram do homem para o posto policial, que tinha as portas cerradas. Do posto policial, os olhos voltaram para o homem. E não saíram mais de lá.
Veio em caminhada rápida, sem porquê aparente. O homem se assustou, porque agora nada mais era normal do modo de andar nas ruas. Não houve tempo para reação. Apenas as mãos saltaram ao peito, mas era puro instinto. Assustado e surpreso, ouviu:
-Perdeu.
Sua inércia deixou o rapaz sem ação e os anúncios de perda foram seguidos e desenfreados:
-Perdeu, meu irmão. Vambora, passa tudo, meu irmão.
Quando retomou o pensar, só vieram raiva e tristeza à cabeça, e essas acabaram com a inércia: o homem agarrou o rapaz pela camisa e o forçou contra o muro. Já não tinha o mesmo olhar permissivo e desinteressado de antes. Era raiva por completo, dos dentes cerrados às veias saltando. O rapaz atônito tentava se libertar, mas as mãos eram fortes, eram intransponíveis.
O homem parecia em alguma espécie de transe. Como se a raiva não fosse só sobre aquele rapaz, que agora parecia vítima, aprisionado nos grossos e grosseiros braços de um brutamontes. Sentia toda a raiva do mundo, era a raiva. Era um quase humano transbordando de raiva.
-Você queria me assaltar, seu merda?
O homem falava pausadamente, e as palavras tinham dificuldade de passar entre seus dentes cerrados.
-Você não viu que estava em frente a um posto policial, seu idiota?
Falava com o vigor de tentar ensinar algo, mas a raiva ainda dominava.
- Você não sabe que eles vão enfiar uma porra grossa no teu cu até você confessar uma porrada de crimes que tu nem conhece?
Falava alto, sem se preocupar com o aglomerado que já se formava.
-Tinha que se sujar?
Gritava.
-Por causa de que?
O rapaz, completamente perplexo, não esboçava reação. Parecia em estado de choque. Apenas os olhos, mais que arregalados, não saíam dos olhos do homem.
O homem jogou o rapaz ferozmente ao chão e começou a despejar o conteúdo de sua pasta sobre o rapaz.
- O que você queria? Uma caneta? Uma agenda? Esses papeis.
O rapaz agora estava deitado sobre o chão. Os olhos fechados, as lágrimas sem espaço pra cair. Todos os papeis da pasta sobre o rapaz, formando um montante branco com pontos pretos, as letras e frestas do corpo do rapaz. Um grande aglomerado em volta, todos sérios e assustados. Alguns celulares filmando. O homem parecia possuído, e não era pelo diabo.
- Você tem passagem?
O menino não respondeu. O homem o pegou pelos ombros e o forçou contra o muro novamente.
-Tem passagem ou não, seu merda?
O menino fez que não com a cabeça, chorando. E as lágrimas eram de ambos os lados. O homem chorava um choro duro, que custava a sair. Era um choro de indignação, de revolta. Aquele rapaz era na verdade um menino. Tão menino quanto seu menino. Chorava por haver meninos e meninos, nas ruas e nas casas.
Devolveu o menino ao chão, que talvez fosse seu lugar, e o fez raivosamente.
- Você quer dinheiro, seu merda?
Pegou a carteira e despejou as notas sobre o garoto. Todas. Fez questão de jogar as moedas também, inclusive as que estavam em seu bolso. Jogava com força, com raiva. Eram esses os golpes que ainda não havia dado.
- É isso que você queria, seu merda?
O garoto fazia que não com a cabeça, em um murmúrio incompreensível de lágrimas e palavras.
- Pronto. Você já tem o que queria. Pode ir.
O menino não moveu dedo. Continuava em seu murmúrio sem signifcado, em um movimento de não com a cabeça, como se lamentasse. E lamentava.
-Leva! Leva! Vai seu merda! Você já tem o que queria.
Diante da imobilidade do garoto, o homem lhe chutou. E mais forte, e mais forte e de novo e de novo. E foram por todo o corpo, da cabeça aos pés, sem controle, numa espontaneidade assustadora de tão violenta. Eram chutes de desespero.
Parou quando percebeu que seus chutes já eram gesto automático, sem vida. Já eram ida e vinda de pé, e não chutes. Parou quando sentiu o pé doer e a dormência chegar. Quando percebeu que já não chutava um rapaz ou um menino, e sim que jogava os pés sobre uma massa vermelha e suja que espirrava algo, que se parecia com sangue.
As pessoas em volta do ocorrido tinham agora o terror instalado em seus rostos. O homem as encarou. Uma por uma, olho por olho. E palavra não fora dita. Agachou-se vagarosamente. Recolheu todos os pertences e os arrumou cuidadosamente em sua pasta. Pegou seus óculos que haviam caído e com o blusão limpou as lentes sujas de sangue. Levantou-se o mais reto possível, e ao levantar já tinha a mesma cara de andar nas ruas de antes. Recolocou os fones . Todos deram passagem e os olhares o seguiram por um bom pedaço.
Um policial chegou para saber o que havia ocorrido. Fitava a todos, mas o silêncio foi tudo o que conseguiu. Quando perguntava mais diretamente o policial ouvia:
- Não sei, não senhor.
E com as perguntas a aglomeração se dissipou. O policial fez o de praxe. Telefonemas e telefonemas. E agora o único que não tinha a mesma cara de andar nas ruas era o morto.
Menino quer mostrar seus textículos ao mundo. Esse é seu espaço. Lembremos que são textículos literários, não outros. Literatura de qualidade duvidosa.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Amores, rosas e espinhos.
Trocavam rosas em constância diária:
de sacada em sacada;
em raro, de mão em mão.
Sempre rosas vermelhas.
Ou verdes.
Ou amarelas, ou coloridas.
Conheciam-se por foto.
Por um quadro negro de tinta ressequida na memória.
Ele o mais belo, ela a mais bela.
Dia desses se esbarraram na rua.
E eram os mesmos rostos belos do quadro negro.
Era o mesmo aspecto de sangue coagulado no rosto,
as mesmas rachaduras na pele,
a mesma hidratação por sangue,
as mesmas feridas.
Tudo era o mesmo.
O sangue dos espinhos das rosas,
e mais o sangue dos espinhos da vergonha,
do nojo e da raiva.
E não só:
era também o sangue dos espinhos do amor.
Eram todos aqueles espinhos
,e rosas,
do amor.
Talvez fosse aquele um amor de espinhos.
Pediram desculpas
e seguiram seus rumos.
de sacada em sacada;
em raro, de mão em mão.
Sempre rosas vermelhas.
Ou verdes.
Ou amarelas, ou coloridas.
Conheciam-se por foto.
Por um quadro negro de tinta ressequida na memória.
Ele o mais belo, ela a mais bela.
Dia desses se esbarraram na rua.
E eram os mesmos rostos belos do quadro negro.
Era o mesmo aspecto de sangue coagulado no rosto,
as mesmas rachaduras na pele,
a mesma hidratação por sangue,
as mesmas feridas.
Tudo era o mesmo.
O sangue dos espinhos das rosas,
e mais o sangue dos espinhos da vergonha,
do nojo e da raiva.
E não só:
era também o sangue dos espinhos do amor.
Eram todos aqueles espinhos
,e rosas,
do amor.
Talvez fosse aquele um amor de espinhos.
Pediram desculpas
e seguiram seus rumos.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Domingo no Centro
Não gosto de escrever ou ler coisas grandes, então espero que a leitura não seja massante. Quanto aos parágrafos, não consegui inserir.
A mulher anda desnorteada. E nem há sul, leste ou oeste. A chuva é intensa e o barulho é infernal, embora isso pouco importe. O vestido de molhado já pesa. As mãos sobre a barriga para esconder a vergonha. Os transeuntes, escassos em domingo no Centro, olham a moça assustados. Há lágrimas, mas a chuva as engole e não podemos vê-las.
A água sai do olho e já é seqüestrada bueiro a baixo. É natural, segue seu rumo. Só a moça ali não faz parte do cenário, é ser estranho, é fora, é descompasso. E agora, já nem desfruta da paz da solidão.
Em sua barriga há um peso, que não pesa. Há um fardo, que é fato, mas o destino muda e daqui a não muito será passado, será só memória, pesadelo. E mais depois ainda, será nem isso, que o esquecimento é presente de deus.
A moça carrega um filho. O feto se alimenta dela, depende inteiramente da mãe para viver. É algo valioso que ali cresce e se desenvolve. E é esse algo que dá importância, sentido ao corpo antes vazio. Agora tudo que a mulher é, é pelo filho. Agora a moça tem um filho e isso não pode mudar. O fato beira a verdade absoluta. Beira.
Dentro de seu corpo há um ser tentando destruí-la. É um bicho nojento que começou mínimo e agora já dá sinal de importância. É um vírus que a come por dentro, dia após dia. Que come toda e qualquer parte de tudo que a mulher tem, é como uma tênia, uma solitária, um micróbio qualquer. É uma cicatriz que cresce de dentro para fora.
A chuva ainda é intensa e a noite é cada vez mais escura. Os transeuntes agora são raros como milagres. Nem putas, nem viados, nem viados gordos chupando paus de meninos magros, nem moleques de rua, nem nada. Só a chuva. E agora uma calçada que parece seca e quente.
Imersa em água, frio, tristeza e medo a moça adormece. E não dorme de sonhar, não dorme de dormir. Só dorme porque a língua não oferece verbo melhor. Não sabe se sonhou, ou é tudo verdade. Ou se dormiu ou se nem acordou. Sabe apenas que continua molhada, com frio, medo e tristeza, e esses, se não fossem quem são, seriam seus melhores amigos. Ou pelo menos os mais presentes.
A barriga não incomoda, mas a cabeça não para de pensar. E é ódio, raiva, tristeza, surpresa, desespero e muito mais. É e é tudo junto. É aquela cicatriz que cresce de dentro para fora e não pára, que a cada momento a suga mais um pouco de vida, que a mata pouco a pouco, muitos poucos por minuto. É a cicatriz que a arrebenta e a arrebentará até o rebento. É a morte, que já não é caminho a trilhar e sim momento presente.
E é a ausência de moral. É a falta de certo e errado que é cada vez mais presente. E não há só dois caminhos, as possibilidades são infinitas. Mas as conseqüências são incalculáveis e o bom já não se distingue do ruim. É o não saber agir, é o mãos atadas, ou pior, as mãos livres. Totalmente livres, podendo tudo, o bom e o ruim, a morte e a vida. É só desespero.
O vestido já não é tão pesado, e não tão inteiro. O cabelo já não é tão macio, já não tem tanta vida, cor ou brilho. Agora a moça parece da rua e é tão natural da rua quanto qualquer mendigo, enchente ou viado gordo comendo cu de viado novo. Agora é parte do cenário, é só outro objeto qualquer. É parte do asfalto para doutor pisar.
O dia começa a raiar. E pessoas a chegar. Elas trabalham, têm empregos, andam apressadas. Não devem ter cicatrizes nas barrigas, devem ser felizes.
Ao ver uma mulher de saltos passando, a moça se lembrou que fora assim. Não, não fora. Era desses tipos que tinha nojo. Eram esses saltos plataforma que a enojavam.
Então se lembrou de tudo. Da bela casa, da bela família. Da faculdade, da vida que um dia tivera. Se lembrou que um dia fora feliz. E ao pensar em felicidade se viu casada e com filhos, numa bela casa. Prometeu a si mesma que tiraria aquele troço de dentro do útero e limparia bem limpo, para que aquele espaço pudesse receber um dia seu amado filho.
A felicidade começou a dar lugar à raiva. As mãos já não saíam da barriga. E não era massagem. Tentava expelir o feto a próprio punho, as mãos de tanta força já davam socos e não havia dor. Era só um objetivo a ser cumprido. Já não tinha mais forças para bater, para pressionar.
Pessoas ofereciam ajuda, mas a moça respondia com raiva. Era só raiva. Tudo era raiva. Em cada rosto via a figura distorcida daquele filho da puta. As palavras que ouvia se alternavam em: “eu te amo” e “confia em mim”. E os transeuntes balançavam. Iam e vinham igual a ele. O mundo vinha e ia que nem ele, o mundo balançava que nem ele naquela noite. Era só balanço. Tudo era só ir e voltar para ir de novo.
- Confia em mim.
- Prova que você me ama.
-Se entrega para mim esta noite, seja só minha.
O balanço aumentava e aumentava, se aproximava do fim. O gozo já estava próximo. As estocadas finais vindo e aumentando o ritmo. As vozes agora eram simultâneas e a roda à sua volta era grande. Muitas vozes, conversas pararelas, sirenes ao fundo e um grito.
O mais intenso que pôde. Um de rasgar garganta e o que vier pela frente. Um para acabar com o inferno, para que alguém pudesse escutá-la e resgatá-la. Um agudo desafinado como a vida da gente. A Presidente Vargas parou para olhar, o Centro do Rio parou para olhar.
Mas o grito era só grito, era só extravasamento. A criatura continuava lá, viva, pulsando. A cicatriz, o subproduto da noite de gozo, da mão mais assanhada, da liberdade, da confiança, das estocadas, do amor, dos “te amo’’ e “ confia em mim ”, continuava ali.
A mulher tinha de fazer alguma coisa. Precisava parar com aquilo de uma vez por todas. Estava deitada, quase desfalecida. Não havia nada. Olhou a seu redor. Era só uma rua e uma multidão à sua volta, nada mais. Avistou um caco de vidro. Era pequeno mas talvez servisse. Pegou o objeto. Forçou-o contra a barriga. Não sentira dor. Era duro, era difícil. A carne era forte, mas ela era mais. O processo era indolor, doía mais a mão que a barriga. O sangue manchava o chão, eternizava o momento da extirpação daquele demônio. Aos poucos, algo começou a sair da abertura criada pelo caco de vidro. E não tinha nada de bonito, heróico. Era só nojento. Só triste.
Viva alma não teve coragem de ajudar., já os gritos foram muitos. De todas as partes. A moça ouvia os gritos alheios como risadas: aquelas depois da transa. Como “bem feito” e “ eu avisei”, coisas que ela muito escutou. Era moça, e assim devia ter permanecido.
Agora não havia mais feto, nem vida, ou desenvolvimento. Eram só tripas esparramadas no chão. Não havia promessa de futuro, uma semente de luz que pega corpo de gente, eram só tripas esparramadas pelo chão. E nem havia cicatriz de dentro pra fora, encosto ou encarnação do demônio. Eram só tripas esparramadas no chão. Agora sim poderia criar sua família. Casar-se com um bom homem e ter um filho com ele. O mal havia sido extirpado. Doeu, mas agora acabou.
Fazia sol. E as sirenes agora eram para ela.
A mulher anda desnorteada. E nem há sul, leste ou oeste. A chuva é intensa e o barulho é infernal, embora isso pouco importe. O vestido de molhado já pesa. As mãos sobre a barriga para esconder a vergonha. Os transeuntes, escassos em domingo no Centro, olham a moça assustados. Há lágrimas, mas a chuva as engole e não podemos vê-las.
A água sai do olho e já é seqüestrada bueiro a baixo. É natural, segue seu rumo. Só a moça ali não faz parte do cenário, é ser estranho, é fora, é descompasso. E agora, já nem desfruta da paz da solidão.
Em sua barriga há um peso, que não pesa. Há um fardo, que é fato, mas o destino muda e daqui a não muito será passado, será só memória, pesadelo. E mais depois ainda, será nem isso, que o esquecimento é presente de deus.
A moça carrega um filho. O feto se alimenta dela, depende inteiramente da mãe para viver. É algo valioso que ali cresce e se desenvolve. E é esse algo que dá importância, sentido ao corpo antes vazio. Agora tudo que a mulher é, é pelo filho. Agora a moça tem um filho e isso não pode mudar. O fato beira a verdade absoluta. Beira.
Dentro de seu corpo há um ser tentando destruí-la. É um bicho nojento que começou mínimo e agora já dá sinal de importância. É um vírus que a come por dentro, dia após dia. Que come toda e qualquer parte de tudo que a mulher tem, é como uma tênia, uma solitária, um micróbio qualquer. É uma cicatriz que cresce de dentro para fora.
A chuva ainda é intensa e a noite é cada vez mais escura. Os transeuntes agora são raros como milagres. Nem putas, nem viados, nem viados gordos chupando paus de meninos magros, nem moleques de rua, nem nada. Só a chuva. E agora uma calçada que parece seca e quente.
Imersa em água, frio, tristeza e medo a moça adormece. E não dorme de sonhar, não dorme de dormir. Só dorme porque a língua não oferece verbo melhor. Não sabe se sonhou, ou é tudo verdade. Ou se dormiu ou se nem acordou. Sabe apenas que continua molhada, com frio, medo e tristeza, e esses, se não fossem quem são, seriam seus melhores amigos. Ou pelo menos os mais presentes.
A barriga não incomoda, mas a cabeça não para de pensar. E é ódio, raiva, tristeza, surpresa, desespero e muito mais. É e é tudo junto. É aquela cicatriz que cresce de dentro para fora e não pára, que a cada momento a suga mais um pouco de vida, que a mata pouco a pouco, muitos poucos por minuto. É a cicatriz que a arrebenta e a arrebentará até o rebento. É a morte, que já não é caminho a trilhar e sim momento presente.
E é a ausência de moral. É a falta de certo e errado que é cada vez mais presente. E não há só dois caminhos, as possibilidades são infinitas. Mas as conseqüências são incalculáveis e o bom já não se distingue do ruim. É o não saber agir, é o mãos atadas, ou pior, as mãos livres. Totalmente livres, podendo tudo, o bom e o ruim, a morte e a vida. É só desespero.
O vestido já não é tão pesado, e não tão inteiro. O cabelo já não é tão macio, já não tem tanta vida, cor ou brilho. Agora a moça parece da rua e é tão natural da rua quanto qualquer mendigo, enchente ou viado gordo comendo cu de viado novo. Agora é parte do cenário, é só outro objeto qualquer. É parte do asfalto para doutor pisar.
O dia começa a raiar. E pessoas a chegar. Elas trabalham, têm empregos, andam apressadas. Não devem ter cicatrizes nas barrigas, devem ser felizes.
Ao ver uma mulher de saltos passando, a moça se lembrou que fora assim. Não, não fora. Era desses tipos que tinha nojo. Eram esses saltos plataforma que a enojavam.
Então se lembrou de tudo. Da bela casa, da bela família. Da faculdade, da vida que um dia tivera. Se lembrou que um dia fora feliz. E ao pensar em felicidade se viu casada e com filhos, numa bela casa. Prometeu a si mesma que tiraria aquele troço de dentro do útero e limparia bem limpo, para que aquele espaço pudesse receber um dia seu amado filho.
A felicidade começou a dar lugar à raiva. As mãos já não saíam da barriga. E não era massagem. Tentava expelir o feto a próprio punho, as mãos de tanta força já davam socos e não havia dor. Era só um objetivo a ser cumprido. Já não tinha mais forças para bater, para pressionar.
Pessoas ofereciam ajuda, mas a moça respondia com raiva. Era só raiva. Tudo era raiva. Em cada rosto via a figura distorcida daquele filho da puta. As palavras que ouvia se alternavam em: “eu te amo” e “confia em mim”. E os transeuntes balançavam. Iam e vinham igual a ele. O mundo vinha e ia que nem ele, o mundo balançava que nem ele naquela noite. Era só balanço. Tudo era só ir e voltar para ir de novo.
- Confia em mim.
- Prova que você me ama.
-Se entrega para mim esta noite, seja só minha.
O balanço aumentava e aumentava, se aproximava do fim. O gozo já estava próximo. As estocadas finais vindo e aumentando o ritmo. As vozes agora eram simultâneas e a roda à sua volta era grande. Muitas vozes, conversas pararelas, sirenes ao fundo e um grito.
O mais intenso que pôde. Um de rasgar garganta e o que vier pela frente. Um para acabar com o inferno, para que alguém pudesse escutá-la e resgatá-la. Um agudo desafinado como a vida da gente. A Presidente Vargas parou para olhar, o Centro do Rio parou para olhar.
Mas o grito era só grito, era só extravasamento. A criatura continuava lá, viva, pulsando. A cicatriz, o subproduto da noite de gozo, da mão mais assanhada, da liberdade, da confiança, das estocadas, do amor, dos “te amo’’ e “ confia em mim ”, continuava ali.
A mulher tinha de fazer alguma coisa. Precisava parar com aquilo de uma vez por todas. Estava deitada, quase desfalecida. Não havia nada. Olhou a seu redor. Era só uma rua e uma multidão à sua volta, nada mais. Avistou um caco de vidro. Era pequeno mas talvez servisse. Pegou o objeto. Forçou-o contra a barriga. Não sentira dor. Era duro, era difícil. A carne era forte, mas ela era mais. O processo era indolor, doía mais a mão que a barriga. O sangue manchava o chão, eternizava o momento da extirpação daquele demônio. Aos poucos, algo começou a sair da abertura criada pelo caco de vidro. E não tinha nada de bonito, heróico. Era só nojento. Só triste.
Viva alma não teve coragem de ajudar., já os gritos foram muitos. De todas as partes. A moça ouvia os gritos alheios como risadas: aquelas depois da transa. Como “bem feito” e “ eu avisei”, coisas que ela muito escutou. Era moça, e assim devia ter permanecido.
Agora não havia mais feto, nem vida, ou desenvolvimento. Eram só tripas esparramadas no chão. Não havia promessa de futuro, uma semente de luz que pega corpo de gente, eram só tripas esparramadas pelo chão. E nem havia cicatriz de dentro pra fora, encosto ou encarnação do demônio. Eram só tripas esparramadas no chão. Agora sim poderia criar sua família. Casar-se com um bom homem e ter um filho com ele. O mal havia sido extirpado. Doeu, mas agora acabou.
Fazia sol. E as sirenes agora eram para ela.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Versos só apenas.
Há versos que já nascem sem vida.
Que são abortos espontâneos de nascença.
Que nascem sem métrica, ética ou licença poética.
São só cuspe do corpo.
Vômito, escarro, coisa assim.
E destroem o caminho por onde passam.
E matam, só matam.
E vão tímpanos, ouvidos, orelhas, carne e tudo mais.
São morte (mal) traduzida em palavras.
É desmorfia travestida de texto.
Não faz livro, não literária, não é poesia.
Só assassina, é assassina.
Faz chorar, só isso, só faz chorar.
E não chora.
É só.
Só de solidão, só de solitário.
Só de tristeza, e só tristeza em ondas sonoras.
Só de apenas.
É isso: talvez esses versos sejam só apenas.
(Embora pena seja seu começo, meio e fim e então o prefixo de negação já perdeu seu sentido.)
Que são abortos espontâneos de nascença.
Que nascem sem métrica, ética ou licença poética.
São só cuspe do corpo.
Vômito, escarro, coisa assim.
E destroem o caminho por onde passam.
E matam, só matam.
E vão tímpanos, ouvidos, orelhas, carne e tudo mais.
São morte (mal) traduzida em palavras.
É desmorfia travestida de texto.
Não faz livro, não literária, não é poesia.
Só assassina, é assassina.
Faz chorar, só isso, só faz chorar.
E não chora.
É só.
Só de solidão, só de solitário.
Só de tristeza, e só tristeza em ondas sonoras.
Só de apenas.
É isso: talvez esses versos sejam só apenas.
(Embora pena seja seu começo, meio e fim e então o prefixo de negação já perdeu seu sentido.)
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
A história de Moramo e Morama.
Cineastas às vezes dedicam seus filmes. Os filmes que fiz, não dediquei. Espero que faça outros e tenha mais oportunidades de dedicatórias. Enquanto isso, poeta que sou, só posso dedicar poemas. E o faço:
à Aline( concebemos juntos a palavra Morama).
Havia um casal de amores.
Passeavam felizes por ruas arborizadas.
Andavam a passos lentos, enamorados:
Amor e Amor.
Com pedras e buracos a vida era perfeita.
Não viram a pedra:
tropeçaram.
Caíram um por cima do outro.
Se fundiram:
Amor + Amor = Moramo.
(No caminho ficaram um a e um r, que era composição por aglutinação)
Agora eram só um.
E eram Moramo, com M de nome próprio.
Heterossexuais que eram, precisavam de uma Morama.
Eram amor, o mais poderoso que há: poderiam criar qualquer coisa.
Já tinham um a e um r, da fusão.
Foi fácil arrumar um amo, que era a conjugação de seus verbos
e por isso o mais importante que há.
O m achou pelo caminho: há mais letras e palavras por aí do que podemos imaginar.
Formaram outro casal:
Amor + Amor = Moramo
a + r + amo + m = Morama
______________________
Moramo e Morama.
Não viveram felizes para sempre.
Viveram o começo e o meio de suas histórias.
E no meio do caminho encontraram o poeta
que não sabia findar histórias:
Eles estão vivos!
à Aline( concebemos juntos a palavra Morama).
Havia um casal de amores.
Passeavam felizes por ruas arborizadas.
Andavam a passos lentos, enamorados:
Amor e Amor.
Com pedras e buracos a vida era perfeita.
Não viram a pedra:
tropeçaram.
Caíram um por cima do outro.
Se fundiram:
Amor + Amor = Moramo.
(No caminho ficaram um a e um r, que era composição por aglutinação)
Agora eram só um.
E eram Moramo, com M de nome próprio.
Heterossexuais que eram, precisavam de uma Morama.
Eram amor, o mais poderoso que há: poderiam criar qualquer coisa.
Já tinham um a e um r, da fusão.
Foi fácil arrumar um amo, que era a conjugação de seus verbos
e por isso o mais importante que há.
O m achou pelo caminho: há mais letras e palavras por aí do que podemos imaginar.
Formaram outro casal:
Amor + Amor = Moramo
a + r + amo + m = Morama
______________________
Moramo e Morama.
Não viveram felizes para sempre.
Viveram o começo e o meio de suas histórias.
E no meio do caminho encontraram o poeta
que não sabia findar histórias:
Eles estão vivos!
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Poema da espera(nça)
(Foi Aline que me ensinou que todas as histórias têm fim. Não sei se queria ter aprendido, mas ela nem perguntou: ensinou sem saber se deveria. Aprendi.)
O poema de hoje é de espera.
É de se notar incapaz e apenas esperar.
Mas só espera quem tem esperança:
o poema de hoje é de esperança.
É de esperança e braços cruzados.
Esperando alguém que não saiba dar fim às histórias.
Tudo o que vivemos, criamos ou escrevemos têm
Começo, Meio e Fim.
Por mais bela que seja a história,
ela leva à tristeza:
acaba.
Portanto, o poema de hoje é de esperar.
Esperar a revolução da poesia.
Esperar a chegada do poeta
que não bote fim em suas histórias.
É isso:
o poema de hoje é só a espera
pelo poeta que não sabia findar histórias.
O poema de hoje é de espera.
É de se notar incapaz e apenas esperar.
Mas só espera quem tem esperança:
o poema de hoje é de esperança.
É de esperança e braços cruzados.
Esperando alguém que não saiba dar fim às histórias.
Tudo o que vivemos, criamos ou escrevemos têm
Começo, Meio e Fim.
Por mais bela que seja a história,
ela leva à tristeza:
acaba.
Portanto, o poema de hoje é de esperar.
Esperar a revolução da poesia.
Esperar a chegada do poeta
que não bote fim em suas histórias.
É isso:
o poema de hoje é só a espera
pelo poeta que não sabia findar histórias.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Infernos e infernos.
A gente fuma o cigarro é pra sentir o inferno perto da boca.
Pra ver o negócio queimando e se sentir no controle.
A gente quer o inferno bem perto.
Pra vigiar.
Pra não ser surpreendido.
Pra esquecer o inferno que a gente vive e dizer:
“ Esse eu controlo.”
A fumaça entrando.
A fumaça saindo e arrancando tudo.
Te matando um pouquinho.
Te levando alguns minutos de dor.
Te dando essa dádiva
O gosto amargo é de homem.
Porque eu posso agüentar todo o amargo da vida.
A gente fuma é
Prá sentir o gosto ruim e provar pra si mesmo que agüenta.
Que a gente é bom o bastante.
Que a vida bate, mas a gente levanta.
Machucado, mais feio que antes.
Mas aqui. Encarando ela e dizendo:
“Sua filha da puta, eu não vou desistir.”
A gente fuma é pra sentir
Que o gosto ruim é menor que você.
Que você é melhor que alguma coisa.
Que tem algo que cheira pior que você.
Que há outros infernos por aí,
Que o seu é só mais um.
E se alguém te disser que você cheira mal.
Responde:
“ Foda-se.
Eu não sou o único.”
Porque a gente não gosta de se foder.
Mas pior que se foder é se foder sozinho.
Pra ver o negócio queimando e se sentir no controle.
A gente quer o inferno bem perto.
Pra vigiar.
Pra não ser surpreendido.
Pra esquecer o inferno que a gente vive e dizer:
“ Esse eu controlo.”
A fumaça entrando.
A fumaça saindo e arrancando tudo.
Te matando um pouquinho.
Te levando alguns minutos de dor.
Te dando essa dádiva
O gosto amargo é de homem.
Porque eu posso agüentar todo o amargo da vida.
A gente fuma é
Prá sentir o gosto ruim e provar pra si mesmo que agüenta.
Que a gente é bom o bastante.
Que a vida bate, mas a gente levanta.
Machucado, mais feio que antes.
Mas aqui. Encarando ela e dizendo:
“Sua filha da puta, eu não vou desistir.”
A gente fuma é pra sentir
Que o gosto ruim é menor que você.
Que você é melhor que alguma coisa.
Que tem algo que cheira pior que você.
Que há outros infernos por aí,
Que o seu é só mais um.
E se alguém te disser que você cheira mal.
Responde:
“ Foda-se.
Eu não sou o único.”
Porque a gente não gosta de se foder.
Mas pior que se foder é se foder sozinho.
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