sábado, 4 de maio de 2013

Poema de amor de mão única.

Os melhores textos vêm da dor, dos amores não correspondidos. Porque eles vêm como um grito, com uma urgência. Gil disse que "a luz surge na escuridão". Também acho. É lá, no escuro e frio da alma que surge a poesia, esse filete incandescente de luz que jorra em palavras.


Vou sair dessa falta.
Me extirpar da sua ausência,
e te deixar na sua plenitude,
das cores vazias e verdades pessoais.
Tua liberdade- espiral,
que me suga, me expulsa,
me exulta como ser,
Com sua exuberância louca,
rôta, de brilho de prazo a vencer.

Vou retornar à minha lindeza desbotada,
voltar pra minha andança desvairada,
pros pés descalços,
no encalço de mais um coração.
Vou voltar aos meu sol, lua e estrelas,
aos meus sonhos e imaginação.
Às belezas da vida sonhada,
construída e idealizada em quarto de prisão,
regada a luxo e burguesia,
o chilique, em puberdade, a qualquer traço de não.
Vou voltar ao meu sim, à minha construção,
ao meu castelo de rebocos, minha alucinação.

Deixar a mocinha se afogar em seu mar de desatenção,
sua presença em abstenção.
Um sim em escândalo
Em disfarece de um não.

Contudo, mesmo depois desse poema de abdicação,
essa ode ao não,
de “ Vou lhe deixar, Vou me encontrar,
Vou seguir meu caminho e esquecer a tentação.”
O que vou mesmo é dar
Asas à minha paixão.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Deixa

"O homem sempre quer aquilo que não tem" ou mesmo " A grama do vizinho é sempre mais verde." Mas no fundo, acho que amores impossíveis se explicam por: " O que pode uma criatura, diante de outra criatura, senão amar?" Enfim, "Histórias de amor duram apenas 90 minutos" porque o amor é efêmero, é fugaz, escorre entre os dedos, ele vai. É necessário desistir, dizer adeus, dizer desculpa, largar o osso, assinar um mea-culpa. É necessário deixar. Deixo. Amei-a, meu choro e meu prazer, meu sonho e meu plano, meu sorriso e minha poesia. Agora deixo, até que o peito não aguente e exploda em amor.

Deixa

Deixa esse amor ir.
Deixa des-ser,
Deixar de ser.

Deixa ser o que for,
Como for.
Como não for.
Esse não amor,
nosso desamor.

Deixa a mocinha virar multidão.
Deixa chegar o não.
E todo seu império de pobreza.

Deixa vir sua tristeza,
Acompanhada da imensa beleza,
da impossibilidade.
Sua tristeza e mediocridade.

E deixa, assim,
o preto imperar.
A cortina preta que tudo sufoca,
tudo mata, esfola,
descortinar

meus sonhos e futuros,
suas cores e seus muros,
tua beleza inalcançável
e minha escrita irrefreável.

Deixa morrer,
Que tudo que nasce, morre
E agora beleza escorre
Do que foi o meu amar.

Deixa que amanhã é outro dia,
Que há de vir outra mocinha,
E que o sol, à revelia,
há de brilhar.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O que vier

Nós sabemos que vamos perder as pessoas que mais amamos, e vivemos como se não soubéssemos. Acho que é menos doloroso.

O texto abaixo tem relação com a frase de Drummond: " As coisas findas, mais que as lindas, essas ficarão.", frase que carrego como mantra.É dedicado a duas das pessoas que mais me foram importantes e que vivem em mim em todo ato ou pensamento, que se enraizaram no mais profundo do que sou e cujas presenças ainda habitarão este mundo por muitos anos. Amor pouco tem a ver com a verbalização: "eu te amo". Tem mais a ver com a ordinariedade do dia, com o não glamour, com as mãos sujas e o corpo suado. Outra frase que também me move bastante e que tem a ver com esse texto é uma de Manoel de Barros: " As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas."

Por fim, a tudo que se foi, a tudo o que virá. Aos que amei, aos que vou amar. Evoé ao que a vida há de me dar, evoé ao futuro lindo que virá. Peço passagem e rendo homenagem:

O que vier
será lindo
será lindo
será?

O que vier
será lindo
será lindo
será!

O que vier
será lindo
será findo
e irá.

O que vier
será findo
será findo
e irá.

O que vier
será findo
será findo
findará.


Mas basta eu fechar os olhos
Que outra vez poderei te encontrar
E outra vez no teu ombro eu poderei recostar
E outra vez tua gaitada eu poderei escutar
E outra vez teu sorriso sorrirá sorrirá

lálálá...

sábado, 21 de julho de 2012

Para quando se pisar o chão.

Antes de pisar esse chão , peça licença.
Peça desculpas, faça reverências.
Tira os teus sapatos brilhantes
E mostra,ao menos uma vez, a face imunda dos teus pés brancos e macios.
Só dessa vez abdica dos teus coloridos tênis, esquece o prateado e o dourado.
O vermelho sangue e o laranja coral.
Abdica, que honra não brilha,
É marrom de lama e malcheira, fede.

Pisa com cuidado e respeito
Essa terra que tu sempre esqueces o maiúsculo ao pronunciar.
Pisa com consciência
Supera tua demência que governa o teu agir, fazer, pensar.
E principalmente o esquecer.

Mas lembra que não pisas piso
Não pisas mármore, granizo.
Pisas lama, solo, chão

E onde pisas, pisa sangue
Suor e saliva
E corpos, mentes, meninas.
Meninos, mulheres, idosos.
Pisas gente, pisas história.

Não, não pisas sangue vermelho escorrido da bravura.
Pisas sangue batido arrancado na tortura,
Sangue preto, pútrido
Filho do momento exdrúxulo
Que se chama ditadura.

Não é sangue que leva a vida
É sangue que perdeu-se junto à vida
E que garante as gerações futuras.

Não é sangue de nutrientes
Plaquetas, plasma, hemáceas
Não é sangue de falácias,
É sangue de gente, que sangrou pra outra gente nascer.
Como o sangue da menarca, o primeiro sangramento
Pra nova vida surgir.

Foi esse sangue, retirado a penas duras,
Por uma ditadura,
Que vem sujo como de menarca,
Já preto pelo estado de decomposição,
Que eleva este lugar, o enobrece
E então o chamamos nação.

domingo, 27 de maio de 2012

Não sei

Não sei que nada sei
Não sei
Sei nada
Sei de nada do ser
do saber, do achar ou do crer

“Só sei que nada sei” é pros sabidos.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quanto ao tempo

Lembra que tempo é recurso finito não-renovável.
Não brota
ou renasce
ou revive,
é fugaz.
*
Lembra que tempo é senhor
Da corredeira da vida.
E o que vai,
Já foi.
E foi-se,
Adeus.
*
E como disse a poeta,
“ Faz a gente, faz da gente e se desfaz.
Ele enrola e desenrola.
Dá gorjeta e pede esmola.”
Enche a sacola do perdão
e do pecado.
Pondo-os lado a lado
até a batida final.
*
Apaga os vestígios.
E não deixa resquícios,
muito menos prestígios,
de vida qualquer.
*
Lembra que o tempo faz nascer e morrer.
E nos faz fazer
do tempo o que for
Fazer dinheiro, fazer amor.
Sentir poesia, sentir rancor.
Escolher o que melhor for,
o caminho de menos dor.
*
E se depois do tempo passar,
e só a tristeza sobrar,
o tempo não vai lamentar,
lamento,
que escolhestes gastar
assim o teu tempo.
*
E não haverá mais dor.
Ou choro,
ou arrependimento.
Porque agora,
e novamente lamento,
já não haverá mais tempo.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Porque Amores só amam


Tudo bem, a mão lhe ia escapando das mãos pouco a pouco, mas não há problema.
Amores vêm e vão, em vão, porque vêm de novo.
E o seu ia. Ia, ia, ia
Cada maldita palavra mal dita afastava a menina alguns metros.
E outras palavras, ainda malditas, mas bem ditas por outra boca,
a levavam ainda mais depressa.

O rapaz não ligava.
Que amores vêm e vão, ele cria.
Em  vão, a vida lhe mostraria.
Tudo bem, não há problemas, mas amores.
Amores só amam.
E o dele só amou.
Outro.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mortes.

A morte lhe chegou. Na verdade, a morte o morreu que morte não ama, mata ou conjuga qualquer outro verbo senão morrer, mas o autor é poeta e sabem como são os poetas, escrevem mais do que devem.
Na praia que estava, afogado morreu. O oceano de um lado, à esquerda. À direita, a via movimentada e seus jovens correndo na avidez da idade. E egos. Mil egos, egos mil.
Acho que não sentiu dor, acho que só o coração parou. Nem isso, acho que morreu com o coração batendo que este não tinha o direito de parar. Se pudesse argumentar, o faria. Diria que não tinha tempo para morrer, que havia ainda muitos contratos a assinar e petições e reuniões e o inventário e aquela cartilha de investimentos e aquele relatório, enfim, precisaria de algo em torno de uma semana para organizar tudo. Mas não argumentou, que morte não argumenta, não faz interlocução. Morte apenas morre.
Acho que a morte o morreu por pena. O homem, no mar que estava, só tinha a cabeça para fora - ou era esta a mais imersa - e nadava desesperadamente. Às vezes para baixo, se afundando mais como a se entregar. Noutras, para cima, como a tentar sobreviver, mas emergia para buscar poesia onde, eu lamento, não havia.
Afogando-se que estava, a morte o morreu por dó, para que não penasse mais.(Embora morte só seja morte e morra, acho que teve pena do pobre rapaz e isso foge completamente à conjugação dos verbos.) Lamento, mas os muitos contratos a assinar e petições e reuniçoes e o inventário e aquela cartilha de investimentos e aquele relatório ficaram. Todos. Em suas gavetas, seus armários, na mesa do escritório. Ficaram. E ele, também. Ali, estendido na areia, como tentando penetrar nesta. Rosto na areia, costas à lua.
Morrera afogado de realidade. E suas narinas buscavam, e desesperadamente, algo que o homem nem conhecia: poesia.
*
E ali perto, menos de 20 metros, eu acredito, outra morte: Jovem rapaz andava tranquilamente com as vistas ao céu, ainda nublado. As nuvens, sua meninice feita de algodão, se abriram num repente: eram sorriso. A lua, cheia em seu brilho de brancura falhada, não teve pena, que lua apenas ilumina: iluminou. O rapaz não aguentou, era muita luz. Embriagou-se. Afogou-se. Morreu.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Amém

* Jesus deixou apenas um mandamento: Amem. A igreja, mistificadora, pôs um acento para ninguém entender. Nasceu Amém.

Espalham câmeras como se pudessem flagrar nosso amor.
Como se suas imagens, sem foco e de lentes sujas, pudessem captar o que somos.
Eles não sabem o que é o peito doer.
Eles não conhecem a insônia de sorriso estampado.

Não conhecem o menino dos dentes tímidos.
Nem seu amar com os olhos.
Neu seu transpirar cuidado,
ou seu andar Carlitos.

Também não conhecem o menino do objetivo
de ver o subjetivo
do mundo.

Eles não sabem o que é amor,
não conhecem a riqueza de seu espectro,
se limitando a pequena parte do todo.


Perdoemos
lhes.
Perdoemos
nos.

(e)

Amemos
lhes.
Amemos
nos.

Amem.

Amemos.

Amém.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Poema do Existencialismo

É, vivi, geralmente vivemos sem viver. E obrigado, por me ajudar nessa luta de olhar com olhos de ver. Texto surgiu da nossa conversa, texto é nosso e é texto de ler.

Olhava o mundo de olhar,
não via de ver.
E não fazia de fazer.
Nem vivia de viver.

Mas quando morreu,
morreu de morrer.
E não há o que dizer
sobre.

( E tamém não estudava de estudar,
ou cantava de cantar,
mas rezava de rezar - embora não soubesse de saber o que é o amor
mas o fato é que dos verbos de primeira conjugação
o autor se esqueceu,
e não foi de esquecer,
foi de esquecer por querer
mesmo.)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Um Dia

Não vim do futuro.
Nesse nem tenho interesse.
Eu vim do Um Dia
E foi no Um Dia que aprendi a ser

Dizem que minha verdade é utopia.
É sonho, magia.
Inverdade, fantasia.
Boa intenção que não remedia.
A dor dessa gente toda.

É que não sabem que a beleza vem de dentro.
E no íntimo mora a poeisa.
Eles não sabem que é só questão de tempo.
A chegada do Um Dia.

Nem toda dor vai ser curada.
E as lágrimas ainda terão seu lugar.
Eu já vou estar mais que morto.
Mas esse dia há de chegar.

E esse Um Dia.
É só o dia.
Em que o amor reinar.

sábado, 3 de março de 2012

Meninos

Há meninos que amam meninos.
E há outros meninos que matam meninos.
E ainda outros meninos que matam meninos que amam meninos.
E mais outros que não amam ou matam ou matam os meninos que amam meninos.

E esses meninos,
e quaisquer outros meninos, são
apenas
Meninos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Conto gótico

Era para o primeiro texto do ano ser sobre fé no ser humano e tal. Mas precisei escrever o texto abaixo. Ele é um grito contra adolescentes de 15/16 anos imersos em ideologias, respeitáveis obviamente, de forma fanática. Há meninos dessa idade que não conseguem pensar na possibilidade de o outro estar correto, que não conseguem discutir, formular argumentos. Esse lamento é raivoso e triste. Não é contra eles, é contra um sistema politico-religioso que faz essas pessoas assim. Pessoas que tem acesso a ciência, mas que a veem apenas como um meio de fugir da pobreza e não como fonte de informações para uma vida melhor, uma interpretação racional da vida. Esse texto não vai mudar nada, eu sei, mas são minhas raiva e imaginação em palavras contra esse tipo de pensamento. É triste ter aulas com doutores mas sair da sala quando ouve a palavra sexo. Esse pensamento está mais próximo de nós que pensamos.

Feliz 2012, com muita reflexão e aprendizado para todos nós.

Segue o texto:

Andava com todos seus orgulhos e fracassos. E não tinha uma bolsinha de orgulhos e fracassos, andava com eles misturados à pele, ao sangue, às vísceras. Eles, os orgulhos e os fracassos, eram parte dela, eram seu caráter, suas ações; era a moça, em orgulhos e fracassos.


A cada dia se enchia mais de derrotas, vitórias, maldades, bondades. E nada de bolsinha, iam todos para sua pele, seu sangue, sua alma. Andava com a pressa e a obstinação de quem tem um objetivo. E a mulher tinha.

Como se acreditasse no andar e andar, até as solas não aguentarem, até o sangue manchar o asfalto e a dor ser insuportável, até não haver mais pés, até serem asfalto e pé uma só coisa e serem mais que um amontoado de preto e vermelho, asfalto e sangue; serem um ser, não vivo por ser um sinal da morte.


A mulher não andava como louca pela cidade com os pés descalços. O parágrafo acima é só figura de linguagem, embora não se distinga tanto da realidade. A mulher andava de ônibus e de carro e de pés, e usava tênis e sandálias e solas. E o sangue não era de feridas de seu corpo, era de algo mais profundo. E a mulher nem sentia.

Viveu como ser humano qualquer, normal de norma, comum de comunidade. De dizer bom dia e boa tarde a todos. E todo existencialismo proveniente de sua vida - esta narrativa, por exemplo, - não fora percebido pela interessada. Fez o ciclo completo: nasceu, cresceu, reproduziu e morreu. E não percebeu, como todos. Devia estar ocupada demais vivendo.


Quando morreu não se surpreendeu, mas creio que o faria. Não havia céu eterno e nem fogo eterno. Havia sono eterno, - e mais uma vez é só uma figura de linguagem - embora ela não percebesse, de novo.

Na verdade, e agora sem figura de linguagem, havia o nada, eterno. Havia o mesmo que há no sono, quando não há sonho, aquele vazio que ninguém explica, aquele preto.


Além do nada, havia pessoas chorando em volta do túmulo. Amigos, filhos, desconhecidos. Choro e tristeza. E havia os erros que não foram cometidos, os pecados não executados, as vontades que ficaram no passado, as paixões nunca realizadas, enfim: havia vida que não fora vivida.


Havia os erros e belezas de uma vida que não fora vivida. Erros e acertos marcados pelo medo, pela crença incontestável em algo, que poderia puni-la, que poderia enviá-la para o inferno se gostasse de outras meninas ou mesmo se falasse com gays. Ateísmo? Assunto proibido. Outras religiôes? Melhor nem falar nisso. Pensar? "Menina, você quer ser fisgada pelo inimigo?!"


E a mulher jazia ali e não se arrependia porque não podia, porque matéria orgânica não se arrepende, porque adubo não pensa e no túmulo só havia trabalho: decompositores a todo vapor. No balanço ficou uma vida vivida sem plenitude, sem pensar, com amarras para o sentir. E a vida, já que morreu, se esgotou, e ficou, portanto, apenas a não plenitude, a falta.


As crianças dos orfanatos que visitava, os irmãos da igreja, seguiram em frente. Sem a alma caridosa que tanto os ajudou. A mulher não. Agora era apenas uma mistura fedida de nutrientes para o sólo.E deus nem entrou na história.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O abraço.

Todo o amor que passou em sua vida e todo o amor que viria a passar em sua vida. E o homem assistindo de perto, com os olhos perdidos e confundidos com outros olhos na multidão. Todo seu amor ali, à sua frente, em um abraço excludente de si. Não eram um menino e uma menina, não eram colegas de escola, adolescentes em abraços fajutos. Não. Era seu amor do passado e seu amor do futuro se abraçando, se amando, e excluindo o rapaz.

Abaixou a cabeça e morreu, para aquele presente, para aqueles amores. E aqueles amores se foram para todo o dia. Ao levantar o rosto, viu, de relance um transeunte em primeiras barbas: renasceu para o amor. E agora estava vivo de novo, com mais uma cicatriz, a cicatriz de mais dois amores. Com mais uma cicatriz estava o rapaz, vivo para o amor.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Por aí

Parte 1

Havia rugas. E marcas e manchas e cicatrizes. E eram só rugas, marcas, manchas e cicatrizes. Não era luta, nem tristeza nem raiva nem dor. Não era um pai morto, uma mãe ausente. Não era o fracasso, a pobreza. Em seu rosto, se via apenas rugas, marcas, manchas e cicatrizes.

Descia a rua com a naturalidade do fazer todos os dias, das pedras de tão frequentes, amigas, que nunca a derrubariam. O andar tinha a tropeguidão das quatro da manhã. Não muita gente agora na rua. Algumas olhavam, outras continuavam em seus próprios assuntos. O cabelo já se desfazia do coque, o suor borrando a maquiagem, as roupas apertando com a calça mostrando mais do que devia: era fim de noite por completo.
Foi ganhando os Arcos da Lapa. O céu enevoado sobre a cabeça e junto com o céu todo o Rio de Janeiro. De plateia só mendigos em sono profundo e nem sequer um ou outro pivete para receber um boquete.

A cabeça estava vazia. Era piloto automático direto para casa. No murmúrio solitário devia reclamar da vida ou ensaiar resposta a algum cliente abusado. E ensaiando que estava, não pôde atuar: sentiu alguém lhe agarrando por trás. As mãos eram fortes e grandes.

-Espera aí, vamos conversar.

O homem não quis conversa. Com as mãos fortes a manteve presa e sua língua explorou a nuca e arredores da moça. Virou-a com força e forçou sua boca contra a da moça, em algo parecido com um beijo. Babado e com arranhões de bigode. Embora acostumada a isso, a moça queria sair, seu expediente já havia terminado. Tentava falar:

-Espera aí, eu sou profissional.

O homem não lhe dava atenção, só queria saber de boca, dentes, beiços e baba. Com as mãos explorava o corpo da moça, já dentro do soutien. Esse não era o primeiro homem corpulento que conhecera, não eram as primeiras mãos nojentas com quem tivera contato, mas a moça estava cansada, e além do mais, ainda não havia combinado seu preço.

A mulher tentava gritar, o homem lhe tapando a boca. Disse em seu ouvido.

-Vamos só fazer um amor gostoso.

A contra gosto, mas já sentindo prazer, prazer a mulher concordou.

-Eu não sou uma mulher qualquer, eu tenho meu preço. E estamos no meio da rua.

-Vou te levar ao meu cafofo.

Enquanto iam a algum lugar, o casal não parou de brincar. Iam bem juntos e o homem ia atrás. A mão sob o soutien da mulher, desnudando seus seios. A mão da moça dentro da calça do policial que tinha o membro para fora. Com a língua do homem em sua nuca, a mulher avistou o céu, e as nuvens haviam se dissipado. Avistou o Teatro Municipal, que parecia saudar os amantes com sua grandiosidade. As sandálias e a garrafa de vodca, que nem foram mencionadas, se perderam em algum ponto da narrativa.

Cruzaram a Cinelândia. Já se podia ver o pequeno posto policial. Da janela viram um policial cochilando em sua cadeira giratória.O homem bateu no vidro. O policial acordou assustado, já empunhando o fuzil que segurava. Abriu a porta.

- Carne nova, sargento?

- Então, soldado, queria que você me quebrasse essa... Sabe como é, não é?....
Queria ter uma privacidade aqui com a menina.

-Ué, a gente não pode dividir?

-Para dois é mais caro, vou logo avisando.

Sargento Gomes concordou com a cabeça:

- Hoje você vai ser a alegria dos Papa Mike.

Parte 2

Perdera o pai em um cochilo. Assistira (a) seu agonizar por longo tempo mas o sono foi mais forte e dormiu. Os olhos se fecharam e o pai ainda gemia de dor. Quando o silêncio se fez, acordou de susto. Viu o pai de olhos esbugalhados, as mãos imóveis na tentativa de retirar o respirador, a barba por fazer, a cama de ferro frio de colchão fino e lençol manchado, os dedos contraídos na magreza de dias de cama.

O velho afogado em sua biles amarelo ovo. Os olhos abertos encarando a luz branca do quarto que o impedia de ter paz. Ao ver seu pai, a moça sentiu um golpe. Um golpe e um alívio. O calvário havia terminado. De olhar cabisbaixo pôs a mão na testa do pai. Tentou rezar um pai nosso. Não conseguiu. Se lembrava apenas de algumas frases da oração. Com uma lágrima nos olhos, fechou os olhos do pai. Pegou suas coisas calmamente e saiu. Foi ao posto das enfermeiras e disse:

- Meu pai morreu.

A expressão do velho ao morrer não tinha nada a ver com sua cara nas noites de farra, quando chegava bêbado acordando os filhos. A camisa molhada de suor, o pano justo sobre a barriga peluda. Ia cambaleando direto ao quarto possuir a mulher. E a menina se levantava, sorrateiramente, com cuidado para não acordar os irmãos, arrastava a cômoda e punha os ouvidos na parede para escutar os gemidos da mãe. Os gritos da mãe lhe davam prazer e inveja. Não entendia como o pai se interessava por aquela mulher gorda e velha, de depilação atrasada e amarras sexuais. E com as mãos sob a cueca substituía o membro do pai, se esquecendo da raiva, da inveja, tendo só prazer. Imaginando o pai a possuindo, a amando, e a fazendo mulher.

Aos poucos foi desenvolvendo algo ruim pela mãe. Um misto de inveja, ódio e, é claro, amor. A situação piorou de vez quando a mãe soube que andava se envolvendo com outros meninos. Acordou-a com a raiva nas fazes rubras de gritar. A menina, de cabelos para cima, acordou apanhando:

- Viado! Viado! Viado!

A mãe pegou-a pela orelha e torceu até a menina levantar. Levou-a à rua ainda em trajes de dormir. A menina em lágrimas de humilhação. Portão a fora, foi gritando:

- Margareth! Margareth!

Uma mulher pôs o rosto para fora de uma janela.

- O que foi?

Sentiu muita raiva ao ver o rosto da mulher surgir na janela, mas agora poderia desmascarar aquela fofoqueira.

- Aqui está meu filho. Quero ver você dizer o que disse na frente dele.
Ao filho:

- É verdade, o que ela disse? É verdade que você estava chupando o pau de um menino ontem na praça?

O filho ficou em silêncio. A mulher continuava a apertar a orelha do filho que continuava a chorar.Apertou mais forte:

- Fala! Fala que essa vaca está mentindo!

O filho continou calado.

- Todo mundo sabe que esse teu filho sempre foi boiola, mulher! Dá licença, que eu tenho mais o que fazer.

Margareth bateu a janela. Constatando o óbvio, a mãe chorou. Largou a orelha do filho, assumia uma postura séria agora, quase austera. Apesar das lágrimas, falou secamente:

- Vai para casa e arruma suas coisas.

A menina obedeceu. Estava triste, humilhada, mas aliviada. Agora sua mãe sabia sobre ela, agora não precisava se esconder, calcular seus movimentos, controlar a munheca e agora, seu pai sabendo que era quase uma mulher, talvez se interessasse por ela, já que era mais jovem e bela que a mãe e poderia satisfazê-lo por completo, sem os limites que a mãe impunha.

Apesar da tristeza, pôs um sorriso no rosto. O mais sensual que conhecia. Prendeu o cabelo cacheado num coque com as mãos e entrou em casa. A mãe chegou logo atrás, esbaforida, gritando pelo marido:

- Paulo! Paulo!

O homem cochilava no sofá. Na sala abafada, apenas dois sofás velhos e uma estante com uma televisão no centro. Na televisão, algum programa esportivo. A menina estava em seu quarto em frente ao espelho se arrumando. Essa era a primeira vez que se mostraria maquiada ao pai, tinha que caprichar. Daquele quarto, não sairia Paulo Júnior, e sim Paula.

Depois de alguma confusão vinda da sala, a menina saiu. O pai, quando a viu, fechou a cara. Estava gritando com a esposa, e ao ver o filho, parou. Não muita raiva, só surpresa e decepção. Um golpe forte no peito, algo não esperado. Engoliu tudo em seco. Em tom seco e sério disse:

-Pega suas coisas e se manda.

E apenas. Voltou ao sofá. Sentou-se e terminou seu programa de esportes. A mulher tentou falar sobre, mas não adiantou. Desse dia em diante sempre que a mulher tocava no assunto, desconversava ou saía. O relacionamento com a mulher tornou-se o pior possível, a ponto de serem só dois estranhos dividindo a cama, e, raramente, o sexo. Paulo Jr. Morrera e eles perderam um filho.

Com as palavras do pai, a menina tivera suas ilusões destruídas, o mundo caíra em suas costas. Não pegou muito, apenas algumas maquiagens. As roupas de menino deixou para trás. Não levou nada que pudesse remeter àquela casa, ao território de Paulo Jr. Foi ganhar a vida, ganhar a noite. Saíra de casa Paulinha, e para nunca mais voltar.

Já estabilizada e com seus demônios controlados, alguns anos depois, Paula soube que o pai estava internado em um hospital público. Depois de pensar bastante, foi visitá-lo. Percebendo o total abandono, passou a cuidar do velho, passando a quase morar no hospital. O velho já não falava e conviver com ele era fácil. Quando viu o filho pela primeira vez nem esboçou reação. Talvez pensasse ser alguma enfermeira nova, ou talvez nem pensasse.

Nos banhos desenvolveram seu amor. Apesar do que houvera, Paula ainda nutria algo por seu pai, ou pela figura máscula e forte que habitara aquela casa. Suas fantasias de menino deram origem a um caso de amor: um pai e seu filho, um velho e uma travesti, uma puta e um vegetal: apenas dois amantes. O velho apenas gemia e o amor durou pouco. Em pouco tempo o pênis mole e as fezes sem controle fizeram nascer em Paula um nojo sem igual. Passara a apenas limpar e cuidar do pai.

Não muito tempo depois, chegou o cochilo.

Parte 3


No sexo anal, sargento Gomes percebeu algo sob a calcinha. Pensando que a mulher estava muito excitada, pôs-se a acariciar o volume por cima do pano. Paula sentiu prazer e não se preocupou, pensando que o homem, obviamente, sabia com quem estava lidando. Sentindo o volume crescer o policial desconfiou. Arrancou a calcinha da mulher e pôde ver o pênis, grande e cheio de veias, nascer.
Se assustou e guardou seu membro, ainda ereto e sujo, rapidamente. Se levantou em descompasso, gritando com a mulher. O soldado, que acompanhava a cena não conseguia parar de rir.

- Então é esse o tipo de menina que você gosta, sargento?

- Essa vadia me enganou.

A mulher surpresa e assustada, ainda no chão tentando cobrir o sexo, tentava argumentar:

- Eu pensei que você soubesse.

O amigo nunca o deixaria em paz, esse fato iria desonrá-lo para sempre. Sargento Gomes foi tomado por uma raiva sem igual, fazendo-o bufar e corar as faces:

- Você vai me pagar, seu viado escroto!

O sargento começou a chutar e pisar a moça no chão, que tentava, inutilmente, se defender com as mãos sobre a cabeça, em gritos de desespero. O soldado ficou assustado. O sangue começou a escorrer.

- Você está maluco? E o que a gente vai fazer com o corpo desse viado?

Sem parar de bater, o sargento respondeu:

- A gente dá um jeito.

E o soldado pôs-se a bater também.

Em pouco tempo a mulher já era silêncio e os chutes eram chutes em uma poça de sangue. Começaram a limpar a desgraça e puseram o corpo no camburão. Depois de pouco mais de uma hora, já haviam despejado o corpo em algum córrego da baixada fluminense.

Quanto a Paula, seguiu o rumo natural da vida. Seu corpo não demorou muito a se desfazer, sendo alimento para incontáveis microorganismos e alguns urubus. Suas moléculas, átomos, aminoácidos, etc, estão por aí. Nos rios, nas plantas, no ar, por aí, sob nós, sobre nós. E Paula depois de morta permaneceu onde sempre esteve: por aí.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O homem e o rapaz.

De uns tempos pra cá não tirava aquela expressão do rosto. Uma expressão de vazio, de papel branco a ser preenchido. Aquela cara que facilmente era substituída pela tristeza ou alegria, aquela cara de estado intermediário, de espera. Era com essa cara que andava nas ruas. Devia ser essa sua cara de andar nas ruas. E era com essa cara de andar nas ruas, que andava nas ruas, cheias de pessoas que andavam nas ruas com suas caras de andar nas ruas.

Agora voltava de mais um dia de trabalho. Pasta sob os braços e fones nos ouvidos. Vestia óculos e roupas sociais. Em caminho contrário ao seu, vinha um rapaz. Bermuda, camisa e chinelos. E, é claro, mais sua cara de andar nas ruas.

O rapaz o fitou vacilante (apenas o olhara, e olhar é um gesto normal de andar nas ruas). Nada de mais. Os olhos do rapaz saltaram do homem para o posto policial, que tinha as portas cerradas. Do posto policial, os olhos voltaram para o homem. E não saíram mais de lá.

Veio em caminhada rápida, sem porquê aparente. O homem se assustou, porque agora nada mais era normal do modo de andar nas ruas. Não houve tempo para reação. Apenas as mãos saltaram ao peito, mas era puro instinto. Assustado e surpreso, ouviu:

-Perdeu.

Sua inércia deixou o rapaz sem ação e os anúncios de perda foram seguidos e desenfreados:

-Perdeu, meu irmão. Vambora, passa tudo, meu irmão.

Quando retomou o pensar, só vieram raiva e tristeza à cabeça, e essas acabaram com a inércia: o homem agarrou o rapaz pela camisa e o forçou contra o muro. Já não tinha o mesmo olhar permissivo e desinteressado de antes. Era raiva por completo, dos dentes cerrados às veias saltando. O rapaz atônito tentava se libertar, mas as mãos eram fortes, eram intransponíveis.

O homem parecia em alguma espécie de transe. Como se a raiva não fosse só sobre aquele rapaz, que agora parecia vítima, aprisionado nos grossos e grosseiros braços de um brutamontes. Sentia toda a raiva do mundo, era a raiva. Era um quase humano transbordando de raiva.

-Você queria me assaltar, seu merda?

O homem falava pausadamente, e as palavras tinham dificuldade de passar entre seus dentes cerrados.

-Você não viu que estava em frente a um posto policial, seu idiota?

Falava com o vigor de tentar ensinar algo, mas a raiva ainda dominava.

- Você não sabe que eles vão enfiar uma porra grossa no teu cu até você confessar uma porrada de crimes que tu nem conhece?

Falava alto, sem se preocupar com o aglomerado que já se formava.

-Tinha que se sujar?

Gritava.

-Por causa de que?

O rapaz, completamente perplexo, não esboçava reação. Parecia em estado de choque. Apenas os olhos, mais que arregalados, não saíam dos olhos do homem.
O homem jogou o rapaz ferozmente ao chão e começou a despejar o conteúdo de sua pasta sobre o rapaz.

- O que você queria? Uma caneta? Uma agenda? Esses papeis.

O rapaz agora estava deitado sobre o chão. Os olhos fechados, as lágrimas sem espaço pra cair. Todos os papeis da pasta sobre o rapaz, formando um montante branco com pontos pretos, as letras e frestas do corpo do rapaz. Um grande aglomerado em volta, todos sérios e assustados. Alguns celulares filmando. O homem parecia possuído, e não era pelo diabo.

- Você tem passagem?

O menino não respondeu. O homem o pegou pelos ombros e o forçou contra o muro novamente.

-Tem passagem ou não, seu merda?

O menino fez que não com a cabeça, chorando. E as lágrimas eram de ambos os lados. O homem chorava um choro duro, que custava a sair. Era um choro de indignação, de revolta. Aquele rapaz era na verdade um menino. Tão menino quanto seu menino. Chorava por haver meninos e meninos, nas ruas e nas casas.

Devolveu o menino ao chão, que talvez fosse seu lugar, e o fez raivosamente.

- Você quer dinheiro, seu merda?

Pegou a carteira e despejou as notas sobre o garoto. Todas. Fez questão de jogar as moedas também, inclusive as que estavam em seu bolso. Jogava com força, com raiva. Eram esses os golpes que ainda não havia dado.

- É isso que você queria, seu merda?

O garoto fazia que não com a cabeça, em um murmúrio incompreensível de lágrimas e palavras.

- Pronto. Você já tem o que queria. Pode ir.

O menino não moveu dedo. Continuava em seu murmúrio sem signifcado, em um movimento de não com a cabeça, como se lamentasse. E lamentava.

-Leva! Leva! Vai seu merda! Você já tem o que queria.

Diante da imobilidade do garoto, o homem lhe chutou. E mais forte, e mais forte e de novo e de novo. E foram por todo o corpo, da cabeça aos pés, sem controle, numa espontaneidade assustadora de tão violenta. Eram chutes de desespero.

Parou quando percebeu que seus chutes já eram gesto automático, sem vida. Já eram ida e vinda de pé, e não chutes. Parou quando sentiu o pé doer e a dormência chegar. Quando percebeu que já não chutava um rapaz ou um menino, e sim que jogava os pés sobre uma massa vermelha e suja que espirrava algo, que se parecia com sangue.

As pessoas em volta do ocorrido tinham agora o terror instalado em seus rostos. O homem as encarou. Uma por uma, olho por olho. E palavra não fora dita. Agachou-se vagarosamente. Recolheu todos os pertences e os arrumou cuidadosamente em sua pasta. Pegou seus óculos que haviam caído e com o blusão limpou as lentes sujas de sangue. Levantou-se o mais reto possível, e ao levantar já tinha a mesma cara de andar nas ruas de antes. Recolocou os fones . Todos deram passagem e os olhares o seguiram por um bom pedaço.

Um policial chegou para saber o que havia ocorrido. Fitava a todos, mas o silêncio foi tudo o que conseguiu. Quando perguntava mais diretamente o policial ouvia:

- Não sei, não senhor.

E com as perguntas a aglomeração se dissipou. O policial fez o de praxe. Telefonemas e telefonemas. E agora o único que não tinha a mesma cara de andar nas ruas era o morto.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Amores, rosas e espinhos.

Trocavam rosas em constância diária:
de sacada em sacada;
em raro, de mão em mão.

Sempre rosas vermelhas.
Ou verdes.
Ou amarelas, ou coloridas.

Conheciam-se por foto.
Por um quadro negro de tinta ressequida na memória.
Ele o mais belo, ela a mais bela.

Dia desses se esbarraram na rua.
E eram os mesmos rostos belos do quadro negro.
Era o mesmo aspecto de sangue coagulado no rosto,
as mesmas rachaduras na pele,
a mesma hidratação por sangue,
as mesmas feridas.
Tudo era o mesmo.

O sangue dos espinhos das rosas,
e mais o sangue dos espinhos da vergonha,
do nojo e da raiva.

E não só:
era também o sangue dos espinhos do amor.

Eram todos aqueles espinhos
,e rosas,
do amor.

Talvez fosse aquele um amor de espinhos.

Pediram desculpas
e seguiram seus rumos.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Domingo no Centro

Não gosto de escrever ou ler coisas grandes, então espero que a leitura não seja massante. Quanto aos parágrafos, não consegui inserir.


A mulher anda desnorteada. E nem há sul, leste ou oeste. A chuva é intensa e o barulho é infernal, embora isso pouco importe. O vestido de molhado já pesa. As mãos sobre a barriga para esconder a vergonha. Os transeuntes, escassos em domingo no Centro, olham a moça assustados. Há lágrimas, mas a chuva as engole e não podemos vê-las.

A água sai do olho e já é seqüestrada bueiro a baixo. É natural, segue seu rumo. Só a moça ali não faz parte do cenário, é ser estranho, é fora, é descompasso. E agora, já nem desfruta da paz da solidão.

Em sua barriga há um peso, que não pesa. Há um fardo, que é fato, mas o destino muda e daqui a não muito será passado, será só memória, pesadelo. E mais depois ainda, será nem isso, que o esquecimento é presente de deus.

A moça carrega um filho. O feto se alimenta dela, depende inteiramente da mãe para viver. É algo valioso que ali cresce e se desenvolve. E é esse algo que dá importância, sentido ao corpo antes vazio. Agora tudo que a mulher é, é pelo filho. Agora a moça tem um filho e isso não pode mudar. O fato beira a verdade absoluta. Beira.

Dentro de seu corpo há um ser tentando destruí-la. É um bicho nojento que começou mínimo e agora já dá sinal de importância. É um vírus que a come por dentro, dia após dia. Que come toda e qualquer parte de tudo que a mulher tem, é como uma tênia, uma solitária, um micróbio qualquer. É uma cicatriz que cresce de dentro para fora.

A chuva ainda é intensa e a noite é cada vez mais escura. Os transeuntes agora são raros como milagres. Nem putas, nem viados, nem viados gordos chupando paus de meninos magros, nem moleques de rua, nem nada. Só a chuva. E agora uma calçada que parece seca e quente.

Imersa em água, frio, tristeza e medo a moça adormece. E não dorme de sonhar, não dorme de dormir. Só dorme porque a língua não oferece verbo melhor. Não sabe se sonhou, ou é tudo verdade. Ou se dormiu ou se nem acordou. Sabe apenas que continua molhada, com frio, medo e tristeza, e esses, se não fossem quem são, seriam seus melhores amigos. Ou pelo menos os mais presentes.

A barriga não incomoda, mas a cabeça não para de pensar. E é ódio, raiva, tristeza, surpresa, desespero e muito mais. É e é tudo junto. É aquela cicatriz que cresce de dentro para fora e não pára, que a cada momento a suga mais um pouco de vida, que a mata pouco a pouco, muitos poucos por minuto. É a cicatriz que a arrebenta e a arrebentará até o rebento. É a morte, que já não é caminho a trilhar e sim momento presente.

E é a ausência de moral. É a falta de certo e errado que é cada vez mais presente. E não há só dois caminhos, as possibilidades são infinitas. Mas as conseqüências são incalculáveis e o bom já não se distingue do ruim. É o não saber agir, é o mãos atadas, ou pior, as mãos livres. Totalmente livres, podendo tudo, o bom e o ruim, a morte e a vida. É só desespero.

O vestido já não é tão pesado, e não tão inteiro. O cabelo já não é tão macio, já não tem tanta vida, cor ou brilho. Agora a moça parece da rua e é tão natural da rua quanto qualquer mendigo, enchente ou viado gordo comendo cu de viado novo. Agora é parte do cenário, é só outro objeto qualquer. É parte do asfalto para doutor pisar.

O dia começa a raiar. E pessoas a chegar. Elas trabalham, têm empregos, andam apressadas. Não devem ter cicatrizes nas barrigas, devem ser felizes.

Ao ver uma mulher de saltos passando, a moça se lembrou que fora assim. Não, não fora. Era desses tipos que tinha nojo. Eram esses saltos plataforma que a enojavam.

Então se lembrou de tudo. Da bela casa, da bela família. Da faculdade, da vida que um dia tivera. Se lembrou que um dia fora feliz. E ao pensar em felicidade se viu casada e com filhos, numa bela casa. Prometeu a si mesma que tiraria aquele troço de dentro do útero e limparia bem limpo, para que aquele espaço pudesse receber um dia seu amado filho.

A felicidade começou a dar lugar à raiva. As mãos já não saíam da barriga. E não era massagem. Tentava expelir o feto a próprio punho, as mãos de tanta força já davam socos e não havia dor. Era só um objetivo a ser cumprido. Já não tinha mais forças para bater, para pressionar.

Pessoas ofereciam ajuda, mas a moça respondia com raiva. Era só raiva. Tudo era raiva. Em cada rosto via a figura distorcida daquele filho da puta. As palavras que ouvia se alternavam em: “eu te amo” e “confia em mim”. E os transeuntes balançavam. Iam e vinham igual a ele. O mundo vinha e ia que nem ele, o mundo balançava que nem ele naquela noite. Era só balanço. Tudo era só ir e voltar para ir de novo.

- Confia em mim.
- Prova que você me ama.
-Se entrega para mim esta noite, seja só minha.

O balanço aumentava e aumentava, se aproximava do fim. O gozo já estava próximo. As estocadas finais vindo e aumentando o ritmo. As vozes agora eram simultâneas e a roda à sua volta era grande. Muitas vozes, conversas pararelas, sirenes ao fundo e um grito.

O mais intenso que pôde. Um de rasgar garganta e o que vier pela frente. Um para acabar com o inferno, para que alguém pudesse escutá-la e resgatá-la. Um agudo desafinado como a vida da gente. A Presidente Vargas parou para olhar, o Centro do Rio parou para olhar.

Mas o grito era só grito, era só extravasamento. A criatura continuava lá, viva, pulsando. A cicatriz, o subproduto da noite de gozo, da mão mais assanhada, da liberdade, da confiança, das estocadas, do amor, dos “te amo’’ e “ confia em mim ”, continuava ali.

A mulher tinha de fazer alguma coisa. Precisava parar com aquilo de uma vez por todas. Estava deitada, quase desfalecida. Não havia nada. Olhou a seu redor. Era só uma rua e uma multidão à sua volta, nada mais. Avistou um caco de vidro. Era pequeno mas talvez servisse. Pegou o objeto. Forçou-o contra a barriga. Não sentira dor. Era duro, era difícil. A carne era forte, mas ela era mais. O processo era indolor, doía mais a mão que a barriga. O sangue manchava o chão, eternizava o momento da extirpação daquele demônio. Aos poucos, algo começou a sair da abertura criada pelo caco de vidro. E não tinha nada de bonito, heróico. Era só nojento. Só triste.

Viva alma não teve coragem de ajudar., já os gritos foram muitos. De todas as partes. A moça ouvia os gritos alheios como risadas: aquelas depois da transa. Como “bem feito” e “ eu avisei”, coisas que ela muito escutou. Era moça, e assim devia ter permanecido.

Agora não havia mais feto, nem vida, ou desenvolvimento. Eram só tripas esparramadas no chão. Não havia promessa de futuro, uma semente de luz que pega corpo de gente, eram só tripas esparramadas pelo chão. E nem havia cicatriz de dentro pra fora, encosto ou encarnação do demônio. Eram só tripas esparramadas no chão. Agora sim poderia criar sua família. Casar-se com um bom homem e ter um filho com ele. O mal havia sido extirpado. Doeu, mas agora acabou.

Fazia sol. E as sirenes agora eram para ela.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Versos só apenas.

Há versos que já nascem sem vida.
Que são abortos espontâneos de nascença.
Que nascem sem métrica, ética ou licença poética.
São só cuspe do corpo.
Vômito, escarro, coisa assim.

E destroem o caminho por onde passam.
E matam, só matam.
E vão tímpanos, ouvidos, orelhas, carne e tudo mais.

São morte (mal) traduzida em palavras.
É desmorfia travestida de texto.
Não faz livro, não literária, não é poesia.
Só assassina, é assassina.
Faz chorar, só isso, só faz chorar.
E não chora.

É só.
Só de solidão, só de solitário.
Só de tristeza, e só tristeza em ondas sonoras.
Só de apenas.

É isso: talvez esses versos sejam só apenas.
(Embora pena seja seu começo, meio e fim e então o prefixo de negação já perdeu seu sentido.)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A história de Moramo e Morama.

Cineastas às vezes dedicam seus filmes. Os filmes que fiz, não dediquei. Espero que faça outros e tenha mais oportunidades de dedicatórias. Enquanto isso, poeta que sou, só posso dedicar poemas. E o faço:

à Aline( concebemos juntos a palavra Morama).

Havia um casal de amores.
Passeavam felizes por ruas arborizadas.
Andavam a passos lentos, enamorados:
Amor e Amor.

Com pedras e buracos a vida era perfeita.
Não viram a pedra:
tropeçaram.

Caíram um por cima do outro.
Se fundiram:

Amor + Amor = Moramo.
(No caminho ficaram um a e um r, que era composição por aglutinação)


Agora eram só um.
E eram Moramo, com M de nome próprio.
Heterossexuais que eram, precisavam de uma Morama.
Eram amor, o mais poderoso que há: poderiam criar qualquer coisa.

Já tinham um a e um r, da fusão.
Foi fácil arrumar um amo, que era a conjugação de seus verbos
e por isso o mais importante que há.
O m achou pelo caminho: há mais letras e palavras por aí do que podemos imaginar.

Formaram outro casal:

Amor + Amor = Moramo
a + r + amo + m = Morama
______________________

Moramo e Morama.


Não viveram felizes para sempre.
Viveram o começo e o meio de suas histórias.
E no meio do caminho encontraram o poeta
que não sabia findar histórias:

Eles estão vivos!